segunda-feira, 16 de outubro de 2017

De Mistérios do Rio



como o rio passa e não se perde?
e ainda ensina a ser guardiã de mistérios?

sabe do rio, só o momento
quem mergulha naquela hora
ou passeia no raso
só sabe que vem onda ou barranco
quem conhece onde tem pedra

e sabe apenas daquela hora
e já perde o fio
lá adiante rio já transmuta
alguém represa
aí, na frente, vem leito liso, ou cascata, é caudal
do outro lado, praia, abismo, loca, grota seca

é da natureza ser passante, fluir e mudar

segue adiante
molha pirambeira, recôncavo, cabeceira
resvala
alimenta queda, cascata, corrente

o rio é
o rio há
o rio está
onde deve estar
para sobreviver
e avança
vai descansar no mar
sem morrer

terça-feira, 29 de agosto de 2017

comigo, comigo, comigo

A imagem pode conter: 1 pessoa, noite
( foto da Mariana Leal)

Não tenho compromisso com quem me congela 
com preguiça, ou desamor, numa imagem que um dia viu

não tenho compromisso

com o que pensam de mim


não tenho compromisso 

com o que enxergam


meu compromisso é 

comigo, comigo, comigo.

E assim, que venha o bem, o bom, o bonito, o mais bonito.
Com muito de inesperado... não planejado... nem pensado antes.

Com o apenas sonhado, não articulado... 
Com mais sensação e menos cálculo.

Vem, Amor.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Do Paó (para iyá Dora ty Oiyà)

( foto: https://www.facebook.com/olhardeumcipo/ ) 

do dia da caça...
de todo dia ser de Òsósí caçador

da espada e do escudo de Ogun 
da força das cachoeiras abundantes de Osun
da ventania purificadora de Oiyà
de, sob o alá de Òsàlá, manter-ser a salvo 
dos olhos perigosos...
dos covardes


( foto: https://www.facebook.com/olhardeumcipo/ ) 



quinta-feira, 2 de março de 2017

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Úmido

Fonte: http://gotartwork.com/Artwork/dancing-in-the-rain/18707/

A água veio do céu.
de dentro.
escorreu no chão.
No tempo da fé transbordar
E água se multiplicou em mãos irmãs
Adoçando o dia da festa para as crianças.

Tempestade lavadeira me pegou na trilha que escolhi
Aí veio o milagre da voz serena, embaixo da chuva
Escorrendo pelas valas da estrada vivida
Até vencer as distâncias e me acertar em cheio o olho
Dos lábios amados, em som distante
O tom daquela gargalhada que eu comeria para viver
O riso dançou com a tormenta  
E deixou tudinho úmido.  

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Aquele Cara

(Imagem: Milo Manara)


Aberta a porta
o beijo sem palavras foi o cumprimento 
em minutos...
todas as roupas no chão
 e as peles entraram em jornada para o alto
avançando encostas 
criando juntas um sistema de hidratação 
na base do suor 

um beijo mais longo que a noite
mantido intacto pelas quatro mãos 
nas duas cabeças coroadas pelos vinte dedos
sem pressa, mas com a força da imensa espera

língua, boca, dedos e mãos
extraindo todo tipo de líquido da pele
para sustentar um mundo que se torna fértil e úmido
é... o massapê da gente foi bem feito

olha...
a carne sabe de si e avança
cada parte do corpo vibra e dança
ijexá ensaiado durante centenas de anos
no voar  da mão percussiva
está a batida ecoando samba no meu no peito

e a felicidade 

onde, quando e como? 
com aquele cara, tudo!
no pensamento e nesta poesia
sorvi, suguei, salguei
e nada lamento



quarta-feira, 3 de agosto de 2016

cheia de mim (para as Pretas Candangas)

Mãos e pernas embaixo d'agua na casa de meus pais, com anéis e pulseira.
eu quero é ver os ocos
e onde houver vazio

que eu saia cheia de mim

me faço escutar
mesmo que não seja através de palavras
quem finge que não ouve
avisado está
assim construí este olhar lavado
num corpo que já andou pelo mundo
numa alma atenta, de espírito revolucionário

tomara que o que eu tenho sirva
se não te servir, você também não me serve